Sindjufe-BA discute como o pós-abolição estruturou o racismo no Brasil
A abolição da escravidão no Brasil e seus efeitos guiaram o debate “14 de maio: o dia seguinte à assinatura da Lei Áurea”, realizado nesta quinta pelo Núcleo de Combate às Opressões do Sindjufe-BA. Com transmissão pelo canal do sindicato no Youtube, a live teve as contribuições de Meire Reis, doutora em História Social pela UFRJ; Fernanda Portela, servidora do TRE e mestra em Segurança Pública, Justiça e Cidadania pela UFBA; e Sandro Sales, psicólogo, servidor do TRT5 e dirigente do Sindjufe-BA, que também mediou a conversa.
Assista à gravação no Youtube do Sindicato
Os três participantes fizeram referência à música “14 de maio”, do cantor e compositor baiano Lazzo Matumbi. Meire Reis iniciou o debate com uma contextualização histórica. “A abolição não foi o desejo de uma princesa, mas fruto da disputa política e das ações do nosso povo”. Segundo a historiadora, depois de 1888, a preocupação das elites foi manter a ordem escravocrata mesmo sem a escravidão formal. “Como controlar se você não tem mais o chicote e a senzala?”, questionou.
Esse controle passou a acontecer de outras formas, para conter quem “cantava demais, falava demais e passeava demais”, ironizou a historiadora, ao explicar como práticas culturais, religiosas e até de circulação passaram a ser alvo de vigilância policial, com a Lei da Vadiagem (1890), a criminalização da capoeira e do candomblé e discursos higienistas que desumanizavam a população negra. Segundo Meire, muitos dos mecanismos que estruturam o racismo na sociedade brasileira hoje se explicam nesse período. Ela também ressaltou que a população reagiu, recusando o lugar de subserviência que era imposto.
Estruturas
Fernanda Portela ampliou a discussão ao afirmar que o tema da escravidão e do pós-abolição não diz respeito apenas à população negra, mas à própria formação do país. Ela destacou que, diante da proximidade da abolição, o Estado passou a agir para impedir a inclusão da população negra na nova sociedade, com medidas como restrições de acesso à terra e à educação, criminalização da cultura negra e incentivo à imigração europeia baseado em teorias racistas. “O Brasil fez uma opção pela exclusão do povo negro e, por consequência, pela desigualdade como estruturante da sua condição nacional”, resumiu.
A pesquisadora também ressaltou que, durante décadas, o país insistiu no mito da democracia racial e demorou a reconhecer o racismo como elemento central da desigualdade brasileira. Para ela, apenas políticas públicas e ações de reparação podem enfrentar essas consequências. “Aquele pensamento do passado não é diferente de hoje e só vamos destruir isso com políticas”.
Subjetividade
Sandro Sales analisou os impactos subjetivos e psicológicos do racismo na vida da população negra. Ele citou dados sobre desigualdade, encarceramento, violência policial e sub-representação em espaços de poder para afirmar o Brasil como um país racista, onde o genocídio da população negra segue acontecendo diariamente. “O Estado cometeu um crime e ainda não houve reparação”.
O psicólogo também destacou os impactos do racismo na saúde mental, explicando como experiências contínuas de discriminação produzem sofrimento psíquico e estresse crônico. Para ele, o enfrentamento ao racismo exige políticas públicas de reparação, educação antirracista, ampliação do acesso à saúde e garantia de presença da população negra nos espaços de poder. “Não existe problema genético. O problema é histórico”, afirmou.
Racismo
Na segunda parte da live, os participantes responderam perguntas e comentários do público sobre temas como branquitude, racismo reverso e políticas de reparação. Meire Reis chamou atenção para a permanência histórica dos mecanismos de controle sobre a população negra. “A questão das drogas hoje é a justificativa para matar a juventude negra”, afirmou. Fernanda Portela destacou que “o mesmo sistema que oprime alguém premia alguém”, ao explicar como estruturas racistas também produzem privilégios e exclusão sistêmica.
Sandro Sales retomou o recorte psicológico do tema e explicou, a partir da neurociência, como o estresse constante provocado pelo racismo afeta as pessoas. “Em uma blitz, por exemplo, você tenta lentificar ao máximo sua musculatura porque tem alguém com uma arma gigante apontada para você. Às vezes, a carteira cai no chão. Se nesse momento você faz um movimento brusco, talvez isso resulte em 80 tiros sobre o carro”, disse, ao falar sobre a violência policial contra a população negra. Ao encerrar o debate, Sandro citou a música de Lazzo: “Mas minha alma resiste, o meu corpo é de luta”. “Sigamos na luta”, concluiu.
Sindjufe-BA – Gestão Unidade na Resistência