Moção de repúdio aos dois primeiros dias da XXV Plenária Nacional Ordinária da FENAJUFE
A base da Bahia, filiada ao SINDJUFE-BA, vem a público manifestar o mais veemente repúdio aos fatos ocorridos nos dois primeiros dias da XXV Plenária Nacional Ordinária da Fenajufe, realizada em Salvador entre 4 e 7 de junho de 2026.
Como participantes e testemunhas, afirmamos: o que vimos ultrapassou em muito os limites legítimos da disputa política. Plenárias são espaços de debate e divergência — próprios da democracia sindical. Mas o que presenciamos foi violência simbólica, manipulação procedimental, investimento na humilhação pública e desrespeito à ampla defesa. Companheiros/as relataram febre, insônia e alguns foram a atendimento de emergência. Violência política também adoece.
Os episódios mais graves concentraram-se no julgamento da Comissão de Ética, que culminou na punição das dirigentes Denise Márcia Carneiro e Eliana Leocádia Borges, com afastamento de 45 dias.
Denise Márcia de Andrade Carneiro é servidora da Justiça Federal da Bahia, militante social histórica na Bahia há mais de 30 anos, foi dirigente da ASSERJUF e está dirigente do SINDJUFE-BA há várias gestões, sempre com atuação firme em defesa dos trabalhadores e trabalhadoras do Judiciário Federal, tornando-se uma referência política da base baiana. Denise conta com o apoio da sua base, da qual nunca se afastou.
Eliana Leocádia Borges é coordenadora de Seguridade Social da Fenajufe e coordenadora-geral do SITRAEMG, com trajetória reconhecida na defesa da categoria, especialmente em debates relacionados à carreira, e valorização de sua base.
Várias foram as irregularidades cometidas durante o processo.
Primeiro: a antecipação do julgamento para o dia 5 de junho, quando a programação original previa o dia 6. As defesas tiveram acesso ao relatório final apenas na hora do debate no dia 5, o que inviabilizou qualquer preparação adequada. Isso não é mero detalhe, pois em um processo ético, prazo e forma são garantias. Desrespeitá-las é desrespeitar o contraditório e a ampla defesa. O estatuto da Fenajufe prevê prazo de 60 dias para a comissão expedir seu relatório e se passaram vários meses. Se isso não foi cumprido, a legitimidade do processo já estaria comprometida.
Segundo: a tentativa de exclusão dos/as ouvintes da base baiana do debate sobre a punição de sua própria dirigente! Após a votação, alguém gritou, em alto e bom som: “chupa”. Essa expressão vulgar, de forte conotação sexual, foi usada como gesto de humilhação e dominação. Em um espaço que se diz comprometido com o combate às opressões, isso é inadmissível!
Terceiro: durante os debates, um delegado afirmou que Denise e Eliana teriam agido com “desinteligência”. Trata-se de um ataque machista e sexista, que tenta transformar divergência política em incapacidade pessoal. Mulheres combativas são frequentemente tratadas como descontroladas ou inferiores. Combate-se o machismo quando ele ocorre contra uma companheira concreta. O autor retratou-se publicamente no dia 6, o que registramos, mas não apaga o ocorrido.
Quarto: o conteúdo político da acusação é igualmente grave. As defesas apontaram: inexistência de prova de deliberação vinculante que obrigasse voto uniforme; ausência de regra expressa de votação em bloco à época dos fatos; impossibilidade de punição com base em regra posterior; e o fato de que a abstenção constitui forma legítima de manifestação política. Divergência sindical não é infração. Abstenção não é crime político. Defesa da base não é traição.
A própria Carta da Bahia, dirigida à 25ª Plenária da Fenajufe, lembrou algo essencial: os verdadeiros adversários da categoria não estavam naquelas cadeiras. Estavam do lado de fora — os que retiram direitos, precarizam o trabalho e atacam o serviço público. Infelizmente, parte significativa da energia política e tempo da Plenária foi consumida num processo punitivo que aprofundou divisões, produziu ressentimentos, adoecimento e revolta na base, e desviou o foco das lutas estruturantes, motivo pelo qual estamos aqui.
Repudiamos, portanto, a antecipação do julgamento em condições que fragilizaram a defesa; a condução apressada de um processo que exigia cautela; a punição de dirigentes alinhadas às suas bases; a expressão obscena e humilhante; o ataque machista; e o ambiente de violência política que marcou os dois primeiros dias da Plenária.
Esta nota é um chamado à lucidez. Que a divergência volte a ser tratada como parte da democracia, e não como desvio ético. Que maiorias políticas entendam que vencer votações não lhes confere autorização moral para humilhar ninguém. Nossa indignação nasce do compromisso com uma prática sindical que respeita pessoas, trajetórias, bases e divergências.
Por tudo isso, manifestamos nosso repúdio ao ocorrido, e nossa solidariedade às dirigentes Denise Márcia de Andrade Carneiro e Eliana Leocádia Borges.
Salvador, 6 de junho de 2026.