Live do Sindjufe-BA debate saúde mental no serviço público e cobra responsabilidade institucional na prevenção do suicídio
No contexto da campanha Janeiro Branco, o Sindjufe-BA realizou a live “Saúde mental: serviço público e a prevenção do suicídio”, abrindo um espaço de debate e escuta após o registro, no início deste ano, de três suicídios de colegas do Poder Judiciário da União (PJU) na Bahia. Mediado pelo dirigente sindical Sandro Sales, servidor do TRT5 e psicólogo, o encontro reuniu convidadas de diferentes áreas para refletir sobre adoecimento psíquico, trabalho e responsabilidade institucional.
Assista à gravação na TV Sindjufe-BA
Na abertura, Sandro expressou o pesar do sindicato e afirmou que o momento exige mais do que homenagens. “Essa live nos obriga a fazer uma reflexão profunda sobre o que está acontecendo no PJU, que resulta em adoecimento psíquico, e como vamos enfrentar essa situação”, disse. Para ele, é necessário deslocar o foco do indivíduo para o sistema. “Não é algo que alguém vai resolver sozinho. É preciso questionar que instituição é essa e provocar respostas concretas.”
A psicóloga, pesquisadora e professora do IFBA e da UFBA, Rosângela Castro, trouxe uma leitura ampliada da saúde, conectando sofrimento psíquico, organização do trabalho e lógica neoliberal. “Saúde não é apenas uma questão médica ou psicológica; é um processo social”, afirmou. Ela destacou que, no serviço público, precarização, sobrecarga, jornadas exaustivas e assédio produzem adoecimento, atingindo com mais força mulheres, pessoas negras e LGBTs. Rosângela também problematizou a forma como o suicídio costuma ser tratado. “É muito comum individualizar o suicídio, mas ele diz muito sobre a sociedade e sobre as instituições onde acontece.”
Enfrentamento coletivo
Representando o Centro de Valorização da Vida (CVV), Josiana Rocha apresentou dados que dimensionam a gravidade do tema e ressaltou a importância da escuta. “É um ato de coragem buscar ajuda”, afirmou. Segundo ela, uma pessoa morre por suicídio a cada 45 segundos no mundo; no Brasil, a cada 45 minutos, colocando o país no 8º lugar em números absolutos. Josiana destacou ainda que, para cada morte por suicídio, ao menos 135 pessoas são diretamente impactadas, e convidou o público a conhecer melhor o trabalho do CVV. A instituição atua há 63 anos, com atendimento gratuito, 24 horas por dia, realizado por voluntários.
A psicóloga Dóris Fernandes, servidora aposentada do TRF1, reforçou que o debate não pode se limitar às fragilidades individuais. “Não estamos falando de pessoas, mas de condições de trabalho que produzem sofrimento”, disse. Citando pesquisa do CNJ, apontou a ausência de dados consolidados sobre suicídio no Judiciário, apesar dos altos índices de ansiedade, estresse, uso contínuo de medicamentos e assédio, em geral subnotificados. “Os números não falam de indivíduos, mas de um ambiente que adoece”, afirmou, criticando o silêncio institucional e a falta de políticas de cuidado.
Encerrando as exposições, Ticiane Natale, coordenadora da Fenamp (Federação Nacional dos Trabalhadores do Ministério Público), relatou a experiência vivida no Ministério Público de São Paulo após suicídios ocorridos dentro da instituição, em horário de trabalho. Diante do silenciamento institucional, trabalhadores criaram um grupo anônimo de escuta que reuniu mais de 300 depoimentos, sendo mais de 70% deles sobre assédio moral. Segundo Ticiane, os relatos revelaram um padrão de adoecimento, medo e solidão no trabalho, evidenciando que não se tratava de casos isolados. “Estamos lutando pelas nossas vidas. O que vivemos é um problema institucional”, afirmou, defendendo enfrentamento coletivo, políticas permanentes de cuidado e atuação firme dos sindicatos.
Ao final do debate, as convidadas destacaram a necessidade de romper o silenciamento, fortalecer redes de apoio e afirmar o sindicato como espaço de proteção, denúncia e construção de alternativas.