João Cezar de Castro Rocha diz que organização da sociedade é a única forma de enfrentar a extrema direita
Em uma análise sobre o cenário político brasileiro e internacional, o professor João Cezar de Castro Rocha relacionou a crise do capitalismo, a guerra cultural e o bolsonarismo ao avanço de projetos autoritários. Na aula “Brasil: democracia, resistência e futuro”, realizada na última quinta (30), no Auditório da Faculdade de Arquitetura da Ufba, o pesquisador defendeu o fortalecimento de sindicatos, movimentos sociais e outras formas de organização coletiva.
O encontro reuniu servidores, dirigentes sindicais, representantes de movimentos sociais e outras entidades. Na abertura, a dirigente do Sindjufe-BA Denise Carneiro afirmou que compreender a conjuntura política é fundamental para fortalecer a defesa do serviço público. Ela destacou que a palestra inaugura o Curso de Formação Política e Liderança promovido pelo sindicato e reforçou a tradição de resistência do estado: “Aqui é Bahia e na Bahia fascista não se cria”.
Em seguida, o reitor eleito da Ufba, João Carlos Salles, deu as boas-vindas ao público. A mesa foi mediada pelo servidor do TRT5 e deputado estadual Hilton Coelho. Professor titular da UERJ, pesquisador do CNPq e autor de diversos livros sobre cultura e política brasileira, Castro Rocha apresentou uma leitura das transformações políticas das últimas décadas e permaneceu em debate com o público por quase quatro horas, aprofundando temas como democracia, soberania, participação popular e comunicação política.
Organização da sociedade é indispensável
Para o pesquisador, sindicatos, movimentos sociais e outras formas de organização ocupam papel estratégico no cenário político atual. “Nada é mais importante hoje do que a organização da sociedade. É a única forma de enfrentar o avanço transnacional da extrema direita”. Segundo ele, essas organizações preservam aquilo que nenhuma rede social substitui: o encontro, a escuta e a construção coletiva.
A crise do capitalismo mudou as expectativas de futuro
Na primeira parte da exposição, Castro Rocha afirmou que o mundo vive uma crise inédita. Segundo ele, já não é possível sustentar uma economia baseada na expansão infinita em um planeta de recursos que estão acabando. “Em 2026, é indispensável conceber o fim do capitalismo. Senão, será mesmo o fim do mundo.” Para o pesquisador, é dessa crise que emerge o neoliberalismo predador, a uberização do trabalho, a precarização da vida e o fortalecimento de regimes autoritários.
Guerra cultural transforma frustração em apoio político
Ao explicar como esse projeto conquista apoio social, Castro Rocha definiu a guerra cultural como seu principal instrumento de mobilização. “Essa guerra é uma máquina de produção de narrativas polarizadoras, com a finalidade de inventar inimigos imaginários, produzir pânico e alimentar o ódio”. Segundo ele, essa estratégia substitui o debate sobre projetos pela mobilização permanente do medo e do ódio.
“O bolsonarismo é a floração da guerra cultural no Brasil”
Na análise do cenário brasileiro, o professor afirmou que o bolsonarismo representa a expressão nacional desse fenômeno. “Sem a memória mal resolvida da ditadura militar, o bolsonarismo não teria tido a força que teve.” O professor lembrou que o Brasil foi o único país da América do Sul a não levar à Justiça os responsáveis pelos crimes da ditadura militar.
Castro Rocha também defendeu que compreender o crescimento desse campo político exige reconhecer as frustrações de parte da população. Segundo ele, muitos jovens apoiam candidatos da extrema direita porque perderam a expectativa de viver melhor do que seus pais e enxergam menos perspectivas de ascensão social. O problema, explicou, é quando a guerra cultural transforma essa frustração em apoio político.
Ocupar as redes e as ruas
Questionado pelo dirigente Sandro Sales sobre “como é que a gente vai trazer de novo o movimento para a rua?”, Castro Rocha respondeu que a classe trabalhadora precisa voltar a combinar organização popular com mobilização nas redes sociais. Como exemplo, citou o movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que transformou a campanha pelo fim da escala 6×1 em uma mobilização nacional. “Nada substitui a organização da sociedade”, concluiu.
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