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ARTIGO: Carta aos familiares e amigos que apoiam o fascismo
24/10/2018

 

Há quatro dias, agi por conta própria e me dirigi a uma emergência psiquiátrica onde fui diagnosticado com quadro depressivo. Ao longo de aproximadamente uma hora de atendimento, narrei os acontecimentos das minhas últimas semanas, em meio a um choro convulsivo. Foram prescritas medicações para controle de ansiedade, insônia e depressão, os quais já estou fazendo uso. Também foi recomendado iniciar um tratamento imediato, o que acatarei.

Sempre me considerei uma pessoa muito resistente e superei as condições de vida mais adversas de forma independente, como sucessivos bullyings vividos no ambiente escolar dos cinco aos quinze anos de idade, além de tristezas profundas e consequentes sensações de morte iminente, fatos que minha família desconhece, justamente porque eu sempre fiz questão de resolvê-los pelos meus esforços.

Mas agora é diferente. O que me angustia e me leva ao fundo do poço da depressão não são questão que dizem respeito somente a mim e ao meu estar no mundo. É algo muito além do que sou, é exercício de alteridade em sua magnitude mais ampla. De fato, desde o primeiro turno das eleições, eu embarquei numa batalha diuturna contra o retrocesso do Brasil sob a batuta de um louco, que quer brincar de presidente de República com seus asseclas descerebrados.

Não, eu não penso em mim. Eu penso em centenas de milhares de pessoas LGBT+ que conquistaram direitos a duras penas, como casar, adotar filhos, ser tratadas pelo nome com que se identificam, ter esses nomes registrados formalmente em certidão de nascimento, documento de identidade e outros, ter atendimento médico respeitoso e adequado à condição em que se apresentam e outras tantas vitórias que nos são muito caras. E todos esses direitos podem ser caçados ou perseguidos por um néscio bonequinho de chumbo se ele for vitorioso. Pensei no extermínio da população negra que já é flagrante e tenderá a aumentar pelo gatilho do racismo institucional. Pensei na cruel violência diária contra mulheres, agora legitimada pelo discurso machista e misógino de um candidato asqueroso. Pensei em outras tantas barbaridades.

Por tais dilemas, minha pressão tem se mantido alta e o sono foi embora. Como não suportava mais noites em claro, fui à emergência psiquiátrica e o resto vocês já sabem. Uma ira incontida me domina e me afunda ao perceber que uma onda fascista, da espécie mais abjeta, tem crescido ao longo dos últimos anos. O sinal mais emblemático da instalação definitiva da degradação política no Brasil se deu nas eleições de 2014, cujos eleitos foram empossados em 1º de janeiro de 2015, formando o Congresso mais conservador da história daquela casa legislativa desde a redemocratização do país, nos anos 80.

A mesma história se repete agora em 2018, e as eleições catapultaram para o Congresso de 2019 embustes que venceram ao lançar mão de uma velha tática para ganhar visibilidade e consequente eleitorado: a forma mais execrável de polêmica, baseada em mentiras e difamações infundadas. Figuras de competência bem questionável ou nula como Alexandre Frota, Eduardo Bolsonaro, Isidório, Kim Kataguiri e Marco Feliciano (só para citar alguns, mas a lista é vastíssima) têm suas cadeiras garantidas a partir de 1º de janeiro do próximo ano.

Foi também em 2014 que Jair Messias Bolsonaro anunciou seu desejo em subir a rampa do Palácio do Planalto com as honrarias de presidente eleito. Contumaz no uso excessivo da mesma prática de mentiras, polêmicas e incitação ao ódio, ele conhece bem como funciona a grande mídia (tanto quanto Hitler dominava a comunicação de massas) e dá o que ela quer: polêmica = audiência = vendas.  Ao longo do tempo, vi sua popularidade crescer muito rapidamente, como era de se esperar que acontecesse.

Era de se esperar? Não. Todos os meus amigos a quem revelei meu temor pela possível eleição de um psicopata fascista ao cargo de presidente da República foram unânimes em dizer que ele não conseguiria tal feito. Aleguei que tempos sombrios já se delineavam há longa data, que a composição do Congresso Nacional em 2015 demonstrava que o ovo da serpente foi cuidadosamente incubado e começava a romper sua casca. Mesmo a eleição de um lunático à Presidência dos Estados Unidos não conseguiu dobrar o ceticismo dos meus amigos sobre um desfecho semelhante ou muito pior no Brasil. Foi necessário chegarmos ao resultado do primeiro turno das eleições presidenciais para que eu pudesse finalmente provar aos meus amigos que eu não era um visionário. Eles que eram ingênuos. Receio que agora seja tarde demais para reparar o erro da indiferença quanto ao abismo à frente.

Se, por um lado, tenho amigos que, antes apáticos, agora reforçam às trincheiras no combate ao avanço do fascismo, tenho outras tantos familiares e amigos que acreditam ser ele a solução para todos os seus males, como um elixir vendido pelas Organizações Tabajara. Nitidamente, movidos por um ódio antipestista, simplesmente ignoram tudo o que de perverso, leviano, odioso, sórdido sai da boca do novo "mito". Não importa que ele autodeclare seu racismo, machismo, misoginia, homofobia, e transfobia, que declare seu desprezo a pobres e índios, que apoie a tortura e o extermínio de inimigos ou que decida acabar com toda e qualquer forma de ativismo social, justamente uma das expressões da voz popular. O que importa é a hombridade que ele representa. Oi? Será que eu entendi direito? Vejamos…

Curiosamente, esses meus familiares e amigos apoiadores do fascismo expresso no discurso de ódio ardiloso de um defensor de tortura ignoram as evidências de uma campanha construída na estratégia de difusão de mentiras pelas redes sociais, especialmente WhatsApp. Teoria da conspiração? Pesquisem sobre Steve Bannon e a bem sucedida campanha de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos. Mas eu dou umas dicas: todo mundo com um smartphone tem WhatsApp, aplicativo que virou uma ferramenta de comunicação moderna e indispensável. Portanto, o perfil de usuário é diverso, incontável. É também um recurso próprio para notícias rápidas, com capacidade de difusão veloz e sem limites. Como o alcance é o mais amplo possível e muito veloz, as notícias veiculadas nem sempre ou quase nunca são objeto de averiguação de veracidade. Vivemos imersos em uma cultura acrítica. As pessoas não tem costume ou vontade de avaliar as informações que chegam em suas mãos. Por essa razão, o WhatsApp se tornou o maior vetor de notícias falsas. Os apoiadores do fascista sabem disso e tiram grande proveito.

Ah, essas mesmas pessoas devem estar ignorando por completo a denúncia sobre a campanha Bolsonaro ter usado para difundir mentiras à exaustão. Onde foi mesmo que ficou a honestidade do candidato de vocês? Ah, já sei! Vocês vão dizer que isso tudo é invenção de mídia golpista, provavelmente financiada por petralhas. Aliás, devem estar achando que eu também me enquadro nesta categoria. Danem-se!

Sim, digo e repito: danem-se todos vocês familiares e amigos que apoiam um lunático com posturas fascistas, que incita ódio e violência. Danem-se, pois, desde o final de semana do primeiro turno das eleições, a minha vida se tornou um caos. Eu constatei que a cultura fascista ganhou corpo em todo o país e as pessoas não têm mais vergonha de se mostrar racistas, machistas, homofóbicas, transfóbicas, violentas, cruéis e assassinas. Tornar-se opressor virou status e eu sou um dos alvos preferenciais.

É triste perceber que o que há de mais odioso em política no mundo é considerado mito por uma multidão de acéfalos movidos pelo ódio e, portanto, cegos. A figura hedionda é tão imprevisível e tão extremista que até a extrema direita o repudia. Ele só tem mesmo o apoio de militares truculentos e arrogantes, de fundamentalistas evangélicos neopentecostais, de mega empresários, do partido com uma das maiores quantidades de políticos caçados, do atual mentor da Ku Klux Klan e de pessoas desequilibradas iguais a ele.

Tenho assistido o recrudescimento da violência motivada pelo ódio gratuito contras pessoas LGBT+. Tenho recebido relatos diários de amigos meus ameaçados em casa, na rua, no trabalho. Tenho visto o horror tomar conta do dia-a-dia dessas pessoas. Já estávamos habituados a violências físicas e psicológicas, algumas fatais, mas a situação fugiu do controle e tomou proporções gigantescas e preocupantes. É flagrante que os pregadores de fúria, como o candidato à presidência, consideram homossexuais e transexuais a escória humana, aquele tipo de gente que eles preferem distantes ou mesmo mortas. Pois esse discurso deflagra e legitima uma série de ações violentas contra pessoas LGBT+, inclusive homicídios motivados exclusivamente por ódio.

Quando eu digo a amigos meus que a eleição de um fascista transformará o Brasil numa Russia que tem a LGBTfobia como política de governo, o povo acha que é exagero meu. Os atos de violência perpetrados diuturnamente pelas hordes de bolsonaristas são o prenúncio de que a violência contra pessoas LGBT+, que já é grande, aumentará ainda mais e se tornará ainda mais cruel. E eu posso ser uma vítima. Nunca esqueçam disso!

Por tudo isso, estou realmente abalado, mas o medo não se apossou de mim. Eu estou irado, possesso, virado no cão, com sangue nos olhos e com vontade de voar em muita jugular. Mas medo não! O medo vai me fragilizar, vai me sufocar, vai frear meus instintos e minha sede de reação! Sou da luta e dela não saio. Daqui em diante, estarei sempre em posição de combate, pois o que vem por aí não é nada bom independente do resultado das eleições. Se eu caí em depressão, ela não conseguiu me imobilizar e esse texto é prova disso. Busquei ajuda por conta própria, solicitei prescrição de medicamentos que não me dopasse e que me mantivessem alerta. E ante tal diagnóstico, decidi romper com circunstâncias que podem me adoecer. Evitarei a convivência com aprendizes de fascista. Cortarei relações para ficar longe das bestas feras e isolar essas energias nefastas.

Portanto, bye, bye, babies. A quem couber essa carapuça, recomendo esquecer minha existência.

Gésner Braga é gay, jornalista, ativista do movimento LGBT+ e servidor da Justiça Federal.

 

 

Nota do SINDJUFE-BA

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